
por Daniel Benevides
O Massari “viaja”. Sorte nossa, que podemos “viajar” com ele, como telespectador, amigo (ou parceiro no crime), ouvinte e agora, cada vez mais, como leitor. Depois da inusitada incursão pelas tessituras tectônicas da cultura pop da Islândia, no seu surpreendente Rumo à Estação Islândia, o Reverendo nos leva a nado numa travessia pelas ondas do rádio até a encosta do Rock Report, programa transmitido pela 89FM do início de 1991 a meados de 1996.
Se fosse disco, Emissões Noturnas – cadernos radiofônicos de FM deveria ter aquele aviso: para ouvir no volume máximo. Pois é daqueles livros feitos com tal espontaneidade, conhecimento de causa e paixão pelo assunto, que fazem sentido de qualquer jeito, lidos em qualquer ordem, em qualquer lugar ou momento – como, talvez, o próprio rádio.
E nem poderia ser diferente: a dinâmica do livro reproduz fielmente o espírito do RR, com seus petardos de informação sônica e as entrevistas mais francas e divertidas do planeta “dito” alternativo. Onde mais se poderia ouvir Mission Of Burma, Firehose e Flaming Lips juntos? Ou um especial com bandas italianas pra lá de curiosas, como Persiana Jones e Ritmo Tribale?! Em que programa se poderia ouvir o Bobby Gillespie, do Primal Scream, dizendo coisas como “a verdadeira música psicodélica é o reggae enfumaçado dos anos 70”, ou o pessoal do Liquid Jesus (banda que desapareceu depois do surto grunge de Seattle) contando das baladas regadas a cogumelo em frente ao túmulo do Jimi Hendrix? Quem mais, se não o Reverendo, conseguiria “arrancar confissões sinceras” de caras fechadões como Nick Cave ou o Slash?
E o que dizer da entrevista com Michael Kocáb, um roqueiro de Praga de extração zappiana, que discursou num Parlamento lotado e amedrontado, clamando pela retirada das tropas soviéticas do país? E que outro livro nacional daria um destaque tão grande para um herói (infelizmente) tão esquecido como Wayne Kramer (a entrevista mais bacana do livro!), um desses caras que realmente foram até o inferno e voltaram vivos para contar a história?
Folheando as páginas belamente editadas em papel reciclado, e relembrando vividamente o programa, dá vontade de começar o coro: “parou por que? Por que parou?”
Melhor début para a Grinta Cultural, nova editora do autor, impossível. Que venham os próximos!
PS: dica fundamental e quase desnecessária: a programação do Rock Report, espalhada estrategicamente ao longo do livro, é uma bela sugestão de roteiro musical para acompanhar a leitura e outras atividades, sejam elas lícitas ou ilícitas, politicamente corretas ou saudavelmente amorais.
Daniel Benevides