Estação Islândia

Reverendo

Livro: RUMO À ESTAÇÃO ISLÂNDIA

Introdução

 

 

FABIO SABETUDO MASSARI, o Reverendo, nasceu no final dos anos 70 pesando uns sessenta quilos. Oficialmente filho de Lautréamont e Deborah Harry, há testemunhos de que poderia ter sido fruto de um encontro casual entre Frank Zappa e uma escritora islandesa, que vivia em São Francisco na época. A semelhança física com o Sheik Yerbouti reforça a segunda hipótese. O importante é que o Reverendo já nasceu sabendo muito. Em pouco tempo flanava por ruelas do Velho Mundo, explorando as seções recônditas de livrarias e lojas de discos. Era o início da Massariana, a monumental coleção de registros dos bons sons e das boas letras, que acabou se tornando um museu vivo da mais pura idiossincrasia, com milhares de itens obrigatórios, seminais, superlativos e estranhos.

Conheci o Fabio nos corredores da MTV quando a emissora era ainda um divertido projeto mutante. Viramos parceiros de cara. A idéia era mostrar o lado obscuro ou, se preferirem, alternativo da music television. Por conta dessa salutar subversão, e sempre sob as bênçãos de Mr. Hyde, viajamos Brasil e mundo afora atrás das bandas e figuras que não se encaixavam no Lado A. Do inacreditável Juntatribo, cuja poeira até hoje não baixou, a Roskilde, festival gigante na gelada Dinamarca, tentamos vasculhar, com algum êxito, tudo o que parecesse bacana nos subterrâneos da música.

Claro que, nessas viagens, especialmente as internacionais, havia os pit stops nas lojas. E foi ai que pude ver como funciona a lógica de construção da Massariana. Fabio compra livros e discos com atitude de artista, como se estivesse pintando um quadro; o que, na verdade, está. Nunca deixei de me surpreender com suas aquisições, suas escolhas, sempre devidamente comentadas em mesas de bar, hotéis e aviões.

Mas além de tudo, o que pegava mesmo era a vontade de escrever um livro. “E aí, quando sai aquele livrinho?” era um mote constante em nossas conversas.

Pois não é que saiu?

E saiu assim, único, um encontro fortuito numa mesa de dissecação, como diria o bom e velho Ducasse.

Único não apenas pelo tema, inusitado até mesmo para os habitantes de Reykjavik, mas também por causa da linguagem peculiar. Em consonância com os papos etílicos e os vinis e CDs islandeses que povoam o livro, as frases de Massari são como placas tectônicas: entrecortadas, elas chocam-se umas nas outras, abrem-se em parênteses enormes, carregam estranhos neologismos, exclamações escarpadas, adjetivos vulcânicos.

É a medida (ou desmedida) de um profundo interesse pela música.

Um brinde, pois, ao Reverendo, que, do alto de seu vesúvio particular, abre pela primeira vez a Massariana para visitação pública.

 

Daniel Benevides

 

Apresentação 

 

 

"Iceland on the brain"

Richard Burton

 

NA HORA DE DECIDIR a epígrafe, briga das boas até o final, deu mesmo o doidão. Não deu Björk com “It’s Oh So Quiet” (diz muito a respeito do lugar); nem Borges (dois trechos de poemas na disputa); nem nada das “Cartas Islandesas”, da impagável dupla de poetas Auden e MacNeice; nem Júlio Verne (quase leva); e nem mesmo o velho Dylan Dog, com o clássico trecho de diálogo: “Mas por que a Islândia? / Ora, porque ela está lá!”

Quem ficou afinal com as honras epigráficas foi o “viajante” Richard Burton, bradando a pulmões cheios e olhos arregalados a síntese máxima de sua reveladora teoria acerca das sensações ambíguas, estranhas, do impacto e reações sofridas pelo visitante de primeira (segunda, terceira...) viagem à Islândia. Acachapação dos sentidos e transformação. Êxtases fantásticos, maravilhas e o horror, o horror. Islândia em el coco. Islândia na cabeça.

No meio de 99, fiz minha segunda viagem à Islândia (A primeira aconteceu no ano anterior. Dez dias que abalaram o autor. Diversão e reconhecimento para a partir de então irrefreáveis intenções futuras.) Aproveitei uma licença no trabalho, ou pedi licença para aproveitar as “más” intenções, e fiquei por lá dois meses. A rigor, férias. Dolce far niente no capricho. A principal idéia... se possível nem ter tantas idéias assim. Refestelar-se em exercícios, leves, de flanação generalizada. Deu mais ou menos certo. Não fosse o detalhe dos discos. Aqueles. Discos, discos e mais discos – no rascunho anotado desse livro, “discos, discos e mais discos” serve de subtítulo para quase tudo. Discos, discos e mais discos.

O marco zero da divisão islandesa da coleção de discos é uma fita cassete Sony HF-90. Uma radical concessão. No meio dos anos 80 conheci uma turma de animados islandeses num jantar em Milão. Já conhecedor das atividades da banda Kukl (conexão gótica em ação) e ligado no “fenomenal” Sugarcubes (graças aos próprios, a Islândia acabara de entrar no mapa de toda uma geração de consumidores pop do planeta), puxei conversa. Forjava, à época, minhas primeiras atividades radiofônicas. Ganhei de presente, de um tal Gu∂mundur, um verdadeiro tratado sobre a atividade sônica islandesa. Litros de álcool depois (primeiro contato direto com traço peculiar do islandês), estava convertido. Logo depois veio a fita. Uma dezena de bandas “obscuras” de nomes complicadíssimos. Microbiografias manuscritas. Os bons sons vindos do além. Surgia a Islandesa, região discográfica autônoma ma non troppo da coleção de discos, a Massariana.

Nos dois meses de Islândia, fui atrás de discos para a Islandesa. Não deve existir nada de critérios mais pessoais do que isso. Discos e algumas de suas histórias. E conversei com personagens dessas histórias. Boa parte dessas anotações foi concebida ali, na estrada, como registro impressionista imediato. Breves considerações colecionísticas, solilóquios musicais anotados em estado de pura desencanação.

Esse livro não conta “a história” dos sons islandeses. Não é catálogo de nenhum tipo. Muito menos guia. (“O que esse livro não é” é o título, possível, de uma introdução a esse livro que nunca existiu.) Não é reportagem objetiva. O olhar (e a audição!) objetivo passou longe.

Uma nota sobre a Björk: todo o mundo dava risada quando eu dizia que esse seria um livro de sons islandeses sem a Björk. Risada porque é mesmo engraçado porque é impossível. A musa local não aparece mais diretamente no livro porque estava fora, trabalhando no filme do Lars Von Triers, à época da minha visita. Sua presença, claro, não deixa de ser marcante. Porque inevitável.

Uma sobre a língua: o islandês é impossível! As eventuais traduções – nomes de bandas, letras – foram feitas para dar o famoso “clima”, uma “vibração” possível. Quase sempre mediadas por outra língua, o inglês.

Esse Rumo à Estação Islândia é a colagem, em arranjo quase cronológico, das anotações e entrevistas. Essas não são todas as bandas islandesas e esses não são necessariamente os mais canonizáveis discos ou personagens da cena (são sim!). Fui das “velharias”, anos 60, até 99. Muita coisa aconteceu de lá pra cá. A cada dia que passa, penso em inclusões, detalhes, apêndices...

A transmissão islandesa continua, a seguir...

 

Fabio Massari

Vesúvio-São Paulo 2001

 

 

Fotos/Imagens

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sigur rós